27
de maio de 2015
Anti-ID
Concluo
meu portfólio apresentando meu quarto trabalho expressivo, em vídeo, e fazendo
um breve relato sobre o seu processo de criação e sobre a experiência da disciplina Cultura da Imagem na Pós Modernidade.
Eu
produzi um vídeo curto, que intitulo Anti-ID. Para a criação, que tinha como
mote sugerido o corpo e/ou a tecnologia, tentei combinar os dois da maneira que descrevo a seguir:
Inicialmente, fiz uma pesquisa na rede social Facebook, levantando quais as últimas postagens feitas pelos meus colegas de turma. Selecionei imagens, músicas e textos de cada um deles, do material que eles ofereciam em seus próprios perfis. Para cada um deles, também criei um célula corpórea, que caracterizasse algum traço pessoal ou mesmo algum fragmento de trabalho artístico já apresentado em sala.
Inicialmente, fiz uma pesquisa na rede social Facebook, levantando quais as últimas postagens feitas pelos meus colegas de turma. Selecionei imagens, músicas e textos de cada um deles, do material que eles ofereciam em seus próprios perfis. Para cada um deles, também criei um célula corpórea, que caracterizasse algum traço pessoal ou mesmo algum fragmento de trabalho artístico já apresentado em sala.
Meu
corpo era o instrumento, o qual tentei neutralizar ao máximo, com figurino e
maquiagem. Mas ainda assim a neutralização, tal qual as identidades divulgadas,
é fabricada, é moldada estética e artisticamente.
Fiz
então uma montagem que associasse imagens, corpo e texto. Este último foi
gravado em off, com uma voz eletrônica, fria e sem alma. No vídeo eu faço
apenas a dublagem.
Essas
escolhas se deram na busca por atribuir o mínimo possível de mim a esses
indivíduos que tentava retratar. Tentei destacar do contexto das redes sociais
as suas identidades, neutralizando-as, recombinando-as numa grande colagem sem
cara, sem nome, sem identidade definida. Um ser híbrido, que é todos e nenhum.
Um ser que, para mim, retrata o que é o homem atual: uma grande colagem de uma
série de referências, combinadas e recombinadas de acordo com o contexto, não
fixas, constantemente atualizadas, reinventadas, numa incessante busca por
aceitação. Num fluxo de relações virtuais tão breves quanto superficiais.
O
vídeo é completamente experimental, e não se pretende uma obra artística acabada,
ou tecnicamente perfeita. É uma provocação, e ao mesmo tempo um lugar de
comungar com os colegas a finalização de um ciclo juntos. Poder ser cada um em
mim é também um gesto de afago, de apreço e admiração. É a celebração dos encontros,
por mais fugazes que sejam.
Nesta
grande rede que é a vida, são esses entrecruzamentos que também nos constituem,
nos afetam e modificam. Termino esta primeira parte da minha jornada no
mestrado me sentido diferente, maior, melhor. Tive a oportunidade de cruzar
comigo mesma em muitos momentos, em muitos espelhos. Esse olhar para dentro me
faz querer verticalizar ainda mais esta experiência, me dá forças para os
próximos passos e encontros.
Sinto-me
agradecida pelas trocas edificantes, e também pelas nem tão edificantes assim. As
experiências ruins também nos constroem. E a estrada segue adiante, com
caminhos a serem percorridos, obstáculos a serem vencidos e encontros, muitos,
a serem celebrados.
Mãos dadas
Carlos Drumond de Andrade
Não serei o poeta de um mundo
caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o
cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a
minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
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