18
de março de 2015
Birdman
Assistimos
ao filme Birdman. A seguir faço um ensaio a respeito das minhas impressões
sobre o filme e fazendo um paralelo com as características da Pós-Modernidade
levantadas por Gilles Lipovetsky.
Birdman
– inesperado sobrevoo sobre o nosso tempo
Utilizando
a metalinguagem, o filme Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância),
dirigido pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, faz um crítica a
respeito da indústria do entretenimento. Com características de filme de arte,
Birdman mantém certa tendência contemporânea das premiações voltarem-se para este
tipo de produção, talvez por um motivo que é claramente exposto e criticado no
filme: a profusão de produções tipo blockbusters e a saturação do mercado, bem
como a ausência de estéticas realmente inovadoras.
Ao
narrar a tentativa de um ator decadente, Riggan Thomson, de retomar o sucesso
outrora conquistado quando interpretara um super-herói do cinema - Birdman, o
filme lança um olhar sobre o ofício do artista e, ao mesmo tempo, seu lugar na
sociedade de consumo.
Interpretado
magistralmente por Michael Keaton, o protagonista percorre uma trajetória
ascendente, porém conturbada, onde uma misteriosa voz questiona constantemente
suas atitudes e decisões, colocando em xeque sua própria identidade.
O
grande vencedor do Oscar 2015 lançou mão de vários planos sequência, que são
gravados no universo de um teatro da Brodway, o que gera, também pelo desenho
labiríntico do lugar, uma aproximação do ritmo do filme com o ritmo frenético
natural da vida do homem contemporâneo. Uma obra impactante, que me deixou
extremamente excitada, apresentando-se reflexiva tanto na forma quanto no
conteúdo. Momentos que merecem destaque são as cenas nas quais o baterista,
também autor da trilha sonora do filme, está inexplicavelmente presente, numa
apropriação da liberdade poética extasiante que o filme nos oferece.
Com
um elenco impecável, o filme nos conduz esquizofrenicamente por várias sequências
de cenas que nos trazem uma a uma, um significado global novo, diferente. Tendo
como mote principal a reflexão sobre o ofício do artista, a partir de um personagem
que representa a decadência de uma carreira construída sobre os pilares dos blockbusters
de heróis, produto cinematográfico essencialmente comercial, traz a ironia do
próprio personagem ser representado propositadamente pelo ator Michael Keaton, o
qual já representou no cinema um personagem icônico, o Batman, sob a direção de
Tim Burton.
Riggan busca com todas as
suas forças, e ultrapassando todos os limites, libertar-se de seu personagem
anterior, o qual considera produto de um sistema do qual ele não quer mais
fazer parte, mas que determina sua identidade, ou como ela é vista pelas
pessoas, dessa forma, tenta encaminhar-se para ser mais “sério”, buscando na
arte que considera mais “nobre”, genuína – o teatro, a sua redenção. É como uma
tentativa de retorno e de reconhecimento pela via da tradição, uma forma de
resistência à sua própria natureza.
Narcisista,
ele luta contra uma voz interna que o denigre, o insulta e o leva a limites
extremos, como a fracassada tentativa de suicídio. O homem-pássaro o persegue
como uma sombra, que o impede de ir em frente, que o enclausura numa crise de
identidade e num pessimismo, fazendo-o questionar-se a todo instante, atingindo
diretamente sua autoestima. Há uma espécie de urgência contraditória na qual
ele luta contra o medo da invisibilidade, ao mesmo tempo em que não quer
render-se à fama “industrializada”. Há não apenas a necessidade de ser visto,
mas a de ser amado, admirado pela crítica e pelo público, reconhecido enquanto
artista.
“Acredite
ou não, estar nos trend topics é poder”
Com
esta fala, a personagem Sam, filha do protagonista e interpretada pela atriz
Emma Stone, aborda uma das características do pós modernismo: a substituição
das relações pessoais pela intermediação tecnológica nas mídias sociais. E,
além, a criação e afirmação da identidade a partir de um tipo de
autoespetacularização, a criação de um personagem de si mesmo, baseada nas
interações com o outro, no retorno do “público”, estando o indivíduo fadado a
“não existir” caso não participe deste espaço comunicacional.
Sobre
o público, há ainda uma crítica àqueles que consomem tais obras “sérias”. A
elitização que nem sempre representa capacidade intelectual, que muitas vezes
está calcada no status, ou seja, de alguma forma no personagem que criamos de
nós mesmos para ser mostrado aos outros.
Mas, Riggan somente atinge o
sucesso esperado quando a sua “persona” se torna maior do que o personagem que
o perseguia. E isso significa sua total libertação, sua transformação num
verdadeiro homem-pássaro, que voa para a eternidade, seja esta a morte, ou
ainda a imortalidade que ele adquire a partir de então.
Por
fim, é importante destacar que, apesar da evidente crítica à indústria do
entretenimento e ao consumo, o foco da obra recai muito mais sobre o indivíduo,
a pessoa inserida nesse contexto, ou seja, nos questionamentos prioritariamente
pessoais, íntimos. A crise familiar, sua confiança enquanto profissional, sua
dificuldade em se relacionar com o outro, seu egocentrismo, são os temas
predominantes na narrativa. E eles retratam, de forma muito lúcida, as crises
pelas quais o homem pós moderno passa, essa necessidade de reinventar-se, de
morrer e renascer constantemente, de estar conectado, embora solitário, de ser
amado e admirado, mas não cultivar relações profundas. É uma grande provocação
para o “jogar-se” definitivamente, para a confiança em nossa própria capacidade
de voar.
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