terça-feira, 16 de junho de 2015

18/03/2015 - Birdman

18 de março de 2015
Birdman

Assistimos ao filme Birdman. A seguir faço um ensaio a respeito das minhas impressões sobre o filme e fazendo um paralelo com as características da Pós-Modernidade levantadas por Gilles Lipovetsky.





Birdman – inesperado sobrevoo sobre o nosso tempo

Utilizando a metalinguagem, o filme Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), dirigido pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, faz um crítica a respeito da indústria do entretenimento. Com características de filme de arte, Birdman mantém certa tendência contemporânea das premiações voltarem-se para este tipo de produção, talvez por um motivo que é claramente exposto e criticado no filme: a profusão de produções tipo blockbusters e a saturação do mercado, bem como a ausência de estéticas realmente inovadoras.
Ao narrar a tentativa de um ator decadente, Riggan Thomson, de retomar o sucesso outrora conquistado quando interpretara um super-herói do cinema - Birdman, o filme lança um olhar sobre o ofício do artista e, ao mesmo tempo, seu lugar na sociedade de consumo.
Interpretado magistralmente por Michael Keaton, o protagonista percorre uma trajetória ascendente, porém conturbada, onde uma misteriosa voz questiona constantemente suas atitudes e decisões, colocando em xeque sua própria identidade.
O grande vencedor do Oscar 2015 lançou mão de vários planos sequência, que são gravados no universo de um teatro da Brodway, o que gera, também pelo desenho labiríntico do lugar, uma aproximação do ritmo do filme com o ritmo frenético natural da vida do homem contemporâneo. Uma obra impactante, que me deixou extremamente excitada, apresentando-se reflexiva tanto na forma quanto no conteúdo. Momentos que merecem destaque são as cenas nas quais o baterista, também autor da trilha sonora do filme, está inexplicavelmente presente, numa apropriação da liberdade poética extasiante que o filme nos oferece.
Com um elenco impecável, o filme nos conduz esquizofrenicamente por várias sequências de cenas que nos trazem uma a uma, um significado global novo, diferente. Tendo como mote principal a reflexão sobre o ofício do artista, a partir de um personagem que representa a decadência de uma carreira construída sobre os pilares dos blockbusters de heróis, produto cinematográfico essencialmente comercial, traz a ironia do próprio personagem ser representado propositadamente pelo ator Michael Keaton, o qual já representou no cinema um personagem icônico, o Batman, sob a direção de Tim Burton.
Riggan busca com todas as suas forças, e ultrapassando todos os limites, libertar-se de seu personagem anterior, o qual considera produto de um sistema do qual ele não quer mais fazer parte, mas que determina sua identidade, ou como ela é vista pelas pessoas, dessa forma, tenta encaminhar-se para ser mais “sério”, buscando na arte que considera mais “nobre”, genuína – o teatro, a sua redenção. É como uma tentativa de retorno e de reconhecimento pela via da tradição, uma forma de resistência à sua própria natureza.
Narcisista, ele luta contra uma voz interna que o denigre, o insulta e o leva a limites extremos, como a fracassada tentativa de suicídio. O homem-pássaro o persegue como uma sombra, que o impede de ir em frente, que o enclausura numa crise de identidade e num pessimismo, fazendo-o questionar-se a todo instante, atingindo diretamente sua autoestima. Há uma espécie de urgência contraditória na qual ele luta contra o medo da invisibilidade, ao mesmo tempo em que não quer render-se à fama “industrializada”. Há não apenas a necessidade de ser visto, mas a de ser amado, admirado pela crítica e pelo público, reconhecido enquanto artista.
“Acredite ou não, estar nos trend topics é poder”
Com esta fala, a personagem Sam, filha do protagonista e interpretada pela atriz Emma Stone, aborda uma das características do pós modernismo: a substituição das relações pessoais pela intermediação tecnológica nas mídias sociais. E, além, a criação e afirmação da identidade a partir de um tipo de autoespetacularização, a criação de um personagem de si mesmo, baseada nas interações com o outro, no retorno do “público”, estando o indivíduo fadado a “não existir” caso não participe deste espaço comunicacional.
Sobre o público, há ainda uma crítica àqueles que consomem tais obras “sérias”. A elitização que nem sempre representa capacidade intelectual, que muitas vezes está calcada no status, ou seja, de alguma forma no personagem que criamos de nós mesmos para ser mostrado aos outros.
Mas, Riggan somente atinge o sucesso esperado quando a sua “persona” se torna maior do que o personagem que o perseguia. E isso significa sua total libertação, sua transformação num verdadeiro homem-pássaro, que voa para a eternidade, seja esta a morte, ou ainda a imortalidade que ele adquire a partir de então.
Por fim, é importante destacar que, apesar da evidente crítica à indústria do entretenimento e ao consumo, o foco da obra recai muito mais sobre o indivíduo, a pessoa inserida nesse contexto, ou seja, nos questionamentos prioritariamente pessoais, íntimos. A crise familiar, sua confiança enquanto profissional, sua dificuldade em se relacionar com o outro, seu egocentrismo, são os temas predominantes na narrativa. E eles retratam, de forma muito lúcida, as crises pelas quais o homem pós moderno passa, essa necessidade de reinventar-se, de morrer e renascer constantemente, de estar conectado, embora solitário, de ser amado e admirado, mas não cultivar relações profundas. É uma grande provocação para o “jogar-se” definitivamente, para a confiança em nossa própria capacidade de voar.


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