06 de maio de 2015
Assistimos
ao filme “Esse amor que nos consome”, uma produção da 3 Moinhos, com roteiro de
Allan Ribeiro e Gatto Larsen e direção de Allan Ribeiro.
Além
do filme como mote, também aconteceu a discussão dos textos de Bauman sobre
tempo e espaço. Este, aliás, foi a minha principal inspiração para o ensaio que
escrevi e que transcrevo a seguir.
A
performance como forma de resistência à civilidade na modernidade líquida
Este ensaio pretende estabelecer um
paralelo entre a performance e a ideia trazida por Bauman sobre a civilidade, exposta por Richard Sennett:
a atividade que protege as
pessoas umas das outras, permitindo, contudo, que possam estar juntas. Usar uma
máscara é a essência da civilidade. As máscaras permitem a socibilidade pura,
distante das circunstâncias do poder, do mal-estar e dos sentimentos privados
das pessoas que as usam. A civilidade tem como objetivo proteger os outros de
serem sobrecarregados com nosso peso.
A arte da performance possui características muito particulares, a
saber: de quebra da quarta parede, participação do espectador, constituição de
um campo de experimentação baseado na apreensão das relações do sujeito com o
mundo.
Logo sua natureza é ir contra o contrato de civilidade estabelecido na
sociedade atual. A performance tem a função de instigar, pressionar, induzir as
pessoas a tirarem suas máscaras e deixar-se ir, expressar-se, confessar seus
sentimentos íntimos e exibir seus pensamentos, sonhos e angústias. Tais
características são diametralmente opostas ao que se estabeleceu enquanto
civilidade na modernidade líquida.
O personagem
Fausto, de Goethe, já preconizava o que hoje determina o modo de vida na
modernidade líquida, quando dizia que desejava sentir toda a sorte de
sentimento do mundo, ainda que para isso tivesse que entregar sua alma ao
diabo. As ilimitadas sensações possíveis são hoje muito mais atraentes do que a
ideia de duração infinita, de longo prazo.
Ao mesmo tempo
em que a arte do ator dialoga com essa modernidade líquida, e já dizia Brook
que :
Teatro tem que ter uma faceta
cotidiana, pois a vida é o que ele conhece. E precisa ter substância e
significados oriundos da experiência humana. [...] Para viver no presente uma experiência teatral temos que
acompanhar a pulsação do nosso tempo.
Combinar a criatividade com a superfície mutável da vida.(pg 79)
O teatro está
em diálogo com o mundo ao redor, influenciado por ele e o influenciando. A
arte, tal qual a modernidade líquida, vem se transformando, assumindo a
instantaneidade do momento presente, da experiência como potencia. Em diálogo
com as transformações trazidas pela modernidade líquida, também o artista
parece livre da obsessão de se prender à sua obra. Sua arte surge e desaparece
de maneira igualmente rápida. O artista, muitas vezes, prefere colocar-se numa
rede de possibilidades a demorar-se num trabalho particular.
Minha
trajetória enquanto artista me coloca neste lugar líquido, quando percebo a
profusão de obras eventuais, de curta duração, de experiências que nascem e
morrem num pequeno intervalo de tempo, às vezes quase instantaneamente. O
próprio movimento da performance tem essa característica fluida, fugaz,
transitória. Ao contrário dos movimentos de teatro de grupo, resistências raras
à tendência atual, vemos um volume cada vez maor de espetáculos “de elenco”,
com duração de poucas temporadas, ou
ainda as companhias de um dono só, onde a rotatividade de atores é
característica primeira.
O artista não
mais desenvolve apego ou compromisso duradouro com nada, nem mesmo com suas
próprias criações. Ele não se mantém no mesmo caminho por muito tempo, pois
sempre mantem a possibilidade de mudar de direção, voltar atrás, construir
novas trajetórias, constante e instantaneamente. Como afirma Bauman, “A
indiferença em relação à duração transforma a imortalidade de uma ideia numa
experiência e faz dela um objeto de consumo imediato” (p. 144).
Parafraseando
Polanyi, sobre o trabalho (do ator): A arte do ator não pode ser uma
mercadoria, dado que não pode ser vendida ou comprada separade de seus portadores.
Arte incorporada: arte que não pode ser movida sem mover o corpo do artista.
Mas também é forma de resistencia, á medida em que se coloca enquanto
questionadora dos individualismos, dos não espaços.
Bauman afirma
que
A capacidade de conviver com a diferença, sem falar na
capacidade de gostar dessa vida e beneficiar-se dela, não é fácil de adquirir e
não se faz sozinha. [...] A incapacidade de enfrentar a pluralidade de seres
humanos e a ambivalência de todas as decisões classificatórias, ao contrário,
se autoperpetuam e reforçam: quanto mais eficazes a tendência à homogeneidade e
o esforço para eliminar a diferença, tanto mais difícil sentir-se à vontade em
presença de estranhos, tanto mais ameaçadora a diferença e tanto mais intensa a
ansiedade que ela gera.(p. 123)
Apesar de
radical, há uma ideia recorrente mostrada principalmente em filmes de ficção
científica: não lugares, civilidade, espaços públicos não civis, máscaras,
identidades construídas, falsas, tudo isso são fatores que nos afastam daquilo
que nos torna humanos, ou seja, nossa capacidade de pensar, criticar, refletir,
nossoas diferenças e valores. A eliminação dessas características, associada à
crescente presença da tecnologia em nossas vidas, seja profissional ou pessoal,
e também como intermédio de comunicação, vem nos tornando cada vez mais
próximos da máquina, que não pensa por si, apenas obedece uma séire de comandos
pré-programados, onde a liberdade é falseada com a sensação de poder fazer o
que quiser, mas sem a percepção de que o léxico de ações tem sido reduzido à
medida em que nos é limada, ou restrita, as ferramentas de educação, reflexão,
e nos é imposto um sistema altamente alienante, castrador e, pior, que age de
forma velada.
A
superficialidade das relações, a volatilidade das identidades, a não fixação ao
lugar, são fatores que nos tornam muito mais manipuláveis. Pode parecer teoria
da conspiração, mas somos todos produtos de um capitalismo que instaura o
consumismo e o imediatismo, além do descartável, como valores primordiais.
Peter Brook
fala sobre espaço vazio numa concepção bem diferente da que Bauman nos
apresenta, na visão de Jerzy Kociatkiewicz e Monika Kostera. Ainda assim,
podemos fazer paralelos interessantes:
Enquanto
Kociatkiewicz e Kostera afirmam que os espaços vazios são “lugares a que não se
atribui significado”, Brook o exalta enquanto espaço de potência, necessário
para que algo de relevante ocorra: “O
espaço Vazio permite que surja um
fenômeno novo, porque tudo o que
diz respeito ao conteúdo, significado, expressão, linguagem e música só podem
existir se a experiência for nova e original. “(pag. 04)
Os
primeiros o caracterizam como impossíveis de serem delimitados fisicamente por
cercas ou barreiras, e afirmam que “Não são lugares proibidos, mas espaços
vazios, inacessíveis porque invisíveis” (in BAUMAN, p. 120). Já Brook, destaca
como outra característica desse tipo de espaço é que o vazio é compartilhado. O espaço é o mesmo para todos que ali estão.
e ainda que “O bom espaço é aquele
para o qual convergem muitas energias
diferentes e onde todas as categorias
desaparecem.” (BROOK, pag. 06)
Mas, em
determinado momento seus pensamentos convergem ao afirmarem que “No teatro a imaginação preenche o espaço”. (BROOK,
pag. 23) e que “Num espaço livre (vazio)
todas as convenções são concebíveis, mas dependem da ausência de formas
rígidas” (BROOK, pg 25). Enquanto aqueles nos trazem a seguinte ideia: “Se ...
o fazer sentido é um ator de padronização, compreensão, speração da surpresa e
criação de significado, nossa experiência dos espaços vazios não inclui o fazer
sentido.” (in BAUMAN, P. 120).
Estar no
espaço vazio, em ambos os casos, nos tira do conforto e da segurança e nos
lança para uma atitude ativa, onde não só o espaço, mas também as pessoas
presentes nele, são icgónitas que exigem uma atitude ativa para serem
preenchidas de significados. Esse lançar-se ao espaço vazio é o desafio do
ator, que tem em sua missão abordar justamente a alteridade do outro, o
desconhecido de si mesmo, a reflexão real sobre quem somos e onde estamos,
longe das identidades e experiências pré fabricadas nas nossas falsas
comunidades. É a margem negligenciada dos espaços, estejam estes fora ou dentro
de nós, o lugar de ação do artista.
REFERÊNCIAS:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade
líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BROOK, Peter. A Porta Aberta. Civilização
Brasileira. RJ. 2000.
Outras
indicações:
Filmes:
Her; Wall-E; La danza da realidad; A montanha sagrada
Livro:
todos de Kerouac
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