quarta-feira, 17 de junho de 2015

06/05/2015 - Esse amor que nos consome

06 de maio de 2015

Assistimos ao filme “Esse amor que nos consome”, uma produção da 3 Moinhos, com roteiro de Allan Ribeiro e Gatto Larsen e direção de Allan Ribeiro.




Além do filme como mote, também aconteceu a discussão dos textos de Bauman sobre tempo e espaço. Este, aliás, foi a minha principal inspiração para o ensaio que escrevi e que transcrevo a seguir.


A performance como forma de resistência à civilidade na modernidade líquida

            Este ensaio pretende estabelecer um paralelo entre a performance e a ideia trazida por Bauman sobre a civilidade, exposta por Richard Sennett:

 a atividade que protege as pessoas umas das outras, permitindo, contudo, que possam estar juntas. Usar uma máscara é a essência da civilidade. As máscaras permitem a socibilidade pura, distante das circunstâncias do poder, do mal-estar e dos sentimentos privados das pessoas que as usam. A civilidade tem como objetivo proteger os outros de serem sobrecarregados com nosso peso.

A arte da performance possui características muito particulares, a saber: de quebra da quarta parede, participação do espectador, constituição de um campo de experimentação baseado na apreensão das relações do sujeito com o mundo.

Logo sua natureza é ir contra o contrato de civilidade estabelecido na sociedade atual. A performance tem a função de instigar, pressionar, induzir as pessoas a tirarem suas máscaras e deixar-se ir, expressar-se, confessar seus sentimentos íntimos e exibir seus pensamentos, sonhos e angústias. Tais características são diametralmente opostas ao que se estabeleceu enquanto civilidade na modernidade líquida.

            O personagem Fausto, de Goethe, já preconizava o que hoje determina o modo de vida na modernidade líquida, quando dizia que desejava sentir toda a sorte de sentimento do mundo, ainda que para isso tivesse que entregar sua alma ao diabo. As ilimitadas sensações possíveis são hoje muito mais atraentes do que a ideia de duração infinita, de longo prazo.

            Ao mesmo tempo em que a arte do ator dialoga com essa modernidade líquida, e já dizia Brook que :

Teatro tem que ter uma faceta cotidiana, pois a vida é o que ele conhece. E precisa ter substância e significados oriundos da experiência humana. [...] Para viver no presente uma experiência teatral temos que acompanhar a pulsação do nosso tempo. Combinar a criatividade com a superfície mutável da vida.(pg 79)

            O teatro está em diálogo com o mundo ao redor, influenciado por ele e o influenciando. A arte, tal qual a modernidade líquida, vem se transformando, assumindo a instantaneidade do momento presente, da experiência como potencia. Em diálogo com as transformações trazidas pela modernidade líquida, também o artista parece livre da obsessão de se prender à sua obra. Sua arte surge e desaparece de maneira igualmente rápida. O artista, muitas vezes, prefere colocar-se numa rede de possibilidades a demorar-se num trabalho particular.

            Minha trajetória enquanto artista me coloca neste lugar líquido, quando percebo a profusão de obras eventuais, de curta duração, de experiências que nascem e morrem num pequeno intervalo de tempo, às vezes quase instantaneamente. O próprio movimento da performance tem essa característica fluida, fugaz, transitória. Ao contrário dos movimentos de teatro de grupo, resistências raras à tendência atual, vemos um volume cada vez maor de espetáculos “de elenco”, com duração de poucas temporadas,  ou ainda as companhias de um dono só, onde a rotatividade de atores é característica primeira.

            O artista não mais desenvolve apego ou compromisso duradouro com nada, nem mesmo com suas próprias criações. Ele não se mantém no mesmo caminho por muito tempo, pois sempre mantem a possibilidade de mudar de direção, voltar atrás, construir novas trajetórias, constante e instantaneamente. Como afirma Bauman, “A indiferença em relação à duração transforma a imortalidade de uma ideia numa experiência e faz dela um objeto de consumo imediato” (p. 144).

            Parafraseando Polanyi, sobre o trabalho (do ator): A arte do ator não pode ser uma mercadoria, dado que não pode ser vendida ou comprada separade de seus portadores. Arte incorporada: arte que não pode ser movida sem mover o corpo do artista. Mas também é forma de resistencia, á medida em que se coloca enquanto questionadora dos individualismos, dos não espaços.

            Bauman afirma que

A capacidade de conviver com a diferença, sem falar na capacidade de gostar dessa vida e beneficiar-se dela, não é fácil de adquirir e não se faz sozinha. [...] A incapacidade de enfrentar a pluralidade de seres humanos e a ambivalência de todas as decisões classificatórias, ao contrário, se autoperpetuam e reforçam: quanto mais eficazes a tendência à homogeneidade e o esforço para eliminar a diferença, tanto mais difícil sentir-se à vontade em presença de estranhos, tanto mais ameaçadora a diferença e tanto mais intensa a ansiedade que ela gera.(p. 123)

            Apesar de radical, há uma ideia recorrente mostrada principalmente em filmes de ficção científica: não lugares, civilidade, espaços públicos não civis, máscaras, identidades construídas, falsas, tudo isso são fatores que nos afastam daquilo que nos torna humanos, ou seja, nossa capacidade de pensar, criticar, refletir, nossoas diferenças e valores. A eliminação dessas características, associada à crescente presença da tecnologia em nossas vidas, seja profissional ou pessoal, e também como intermédio de comunicação, vem nos tornando cada vez mais próximos da máquina, que não pensa por si, apenas obedece uma séire de comandos pré-programados, onde a liberdade é falseada com a sensação de poder fazer o que quiser, mas sem a percepção de que o léxico de ações tem sido reduzido à medida em que nos é limada, ou restrita, as ferramentas de educação, reflexão, e nos é imposto um sistema altamente alienante, castrador e, pior, que age de forma velada.
           
            A superficialidade das relações, a volatilidade das identidades, a não fixação ao lugar, são fatores que nos tornam muito mais manipuláveis. Pode parecer teoria da conspiração, mas somos todos produtos de um capitalismo que instaura o consumismo e o imediatismo, além do descartável, como valores primordiais.
           
            Peter Brook fala sobre espaço vazio numa concepção bem diferente da que Bauman nos apresenta, na visão de Jerzy Kociatkiewicz e Monika Kostera. Ainda assim, podemos fazer paralelos interessantes:

Enquanto Kociatkiewicz e Kostera afirmam que os espaços vazios são “lugares a que não se atribui significado”, Brook o exalta enquanto espaço de potência, necessário para que algo de relevante ocorra: “O espaço Vazio permite que surja um fenômeno novo, porque tudo o que diz respeito ao conteúdo, significado, expressão, linguagem e música só podem existir se a experiência for nova e original. “(pag. 04)

Os primeiros o caracterizam como impossíveis de serem delimitados fisicamente por cercas ou barreiras, e afirmam que “Não são lugares proibidos, mas espaços vazios, inacessíveis porque invisíveis” (in BAUMAN, p. 120). Já Brook, destaca como outra característica desse tipo de espaço é que o vazio é compartilhado. O espaço é o mesmo para todos que ali estão. e ainda que “O bom espaço é aquele para o qual convergem muitas energias diferentes e onde todas as categorias desaparecem.” (BROOK, pag. 06)

Mas, em determinado momento seus pensamentos convergem ao afirmarem que “No teatro a imaginação preenche o espaço”. (BROOK, pag. 23) e que “Num espaço livre (vazio) todas as convenções são concebíveis, mas dependem da ausência de formas rígidas” (BROOK, pg 25). Enquanto aqueles nos trazem a seguinte ideia: “Se ... o fazer sentido é um ator de padronização, compreensão, speração da surpresa e criação de significado, nossa experiência dos espaços vazios não inclui o fazer sentido.” (in BAUMAN, P. 120).

Estar no espaço vazio, em ambos os casos, nos tira do conforto e da segurança e nos lança para uma atitude ativa, onde não só o espaço, mas também as pessoas presentes nele, são icgónitas que exigem uma atitude ativa para serem preenchidas de significados. Esse lançar-se ao espaço vazio é o desafio do ator, que tem em sua missão abordar justamente a alteridade do outro, o desconhecido de si mesmo, a reflexão real sobre quem somos e onde estamos, longe das identidades e experiências pré fabricadas nas nossas falsas comunidades. É a margem negligenciada dos espaços, estejam estes fora ou dentro de nós, o lugar de ação do artista.
           

REFERÊNCIAS:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BROOK, Peter. A Porta Aberta. Civilização Brasileira. RJ. 2000.


Outras indicações:
Filmes: Her; Wall-E; La danza da realidad; A montanha sagrada
Livro: todos de Kerouac

Nenhum comentário:

Postar um comentário