11
de março de 2015
Da modernidade à pós
Expanações
do Prof. Dr. Adriano Cruz sobre o texto de Harvey: Passagem da Modernidade à
Pós-modernidade
Características
da Pós-modernidade:
- Fracasso das narrativas que pretendem “dar conta do mundo” (marxismo, iluminismo, etc.).
- A esperança na economia e no capitalismo decaem.
- Ampliação do olhar para outros mundos, inclusive dentro da academia. Stuart Hall, Raymond Williams (cultura pop, feminismo, negros, etc.).
- Lugar e hora do 3º mundo falar.
- Debate da Pós-Modernidade: décadas de 70 e 80.
- Da diáspora – Livro de Stuart Hall.
- Bauman fala de um “entrelugar”.
- O poder do Estado na URSS.
- A fragmentação do mundo abre espaço para os confrontos, guerras e insurgências.
- Espaço urbano caótico.
- Discurso da descontinuidade (na ciência, na história), regimes de verdade que se alternam.
- Rejeição ao progresso, uma vez que “ele não deu certo”.
- Fragmentação e a efemeridade também podem ser características positivas.
- Múltiplas representações do mundo.
- Instantaneidade.
- Possibilidades multimídia.
- Colapso dos horizontes temporais.
Apontamentos
sobre o texto: Poética do pós-modernismo, de Linda Hutcheon
- Contradição – instala conceitos e os subverte.
- Fenômeno histórico.
- Política.
- Diálogo irônico com o passado.
- Paródia.
- Reelaboração crítica do passado.
- Cultura de massa encarada de forma positiva.
Assistimos
ainda trechos do filme Koyaanisqatsi.
Link
do filme: https://vimeo.com/21922694
Assistimos
ao filme 35 and Single:
Indicações:
Filmes:
Depois do pornô; Ninfomaníaca; todos Erika Lust.
Livro:
A máquina de Narciso.
Espetáculo:
A encruzilhada do mundo – Bololô e Atores à Deriva
A
seguir, um ensaio que fiz sobre o tema da Pós-Modernidade, e as questões que
durante a disciplina vem me provocando, atravessando.
-----*-----*-----*-----
Identidade e Arte Teatral na Pós-modernidade, Influências
da Tecnologia e do Mercado de Consumo
Se
é característica intrínseca ao artista transgredir e questionar, faz-se
necessária uma visão crítica de mundo, diferenciada, principalmente no contexto
pós-moderno, onde faltam-nos referências sólidas. Onde a negação da solidez,
nos torna também “objetos” dessa sociedade sem limites, sem escrúpulos, sem
calor. As convicções perderam-se no caminho.
Na
modernidade líquida, o indivíduo é impelido a construir novas identidades a
cada ciclo, de tal forma que essa autorredefinição torna-se uma necessidade, e a
estabilidade torna-se uma condição deprimente e em desalinho com o contexto do
mundo contemporâneo.
Há,
em nosso tempo, uma tendência à autoespetacularização, uma exibição pública de
intimidades e pessoalidades “selecionadas” para construir uma identidade ou
personagem efêmera, que em um curto intervalo de tempo se transforma
completamente, seja pela inquietude inerente ao indivíduo deste tempo, seja
pela sua interrelação com o ambiente e os seus pares. O sucesso mede-se de
acordo com a quantidade de “likes”, enquanto
que menos compartilhamentos significam menos aceitação à faceta exposta, e mais
rapidamente a mudança se faz necessária. Dessa forma, os indivíduos vão-se
moldando, a cada dia, a cada post,
numa reinvenção desesperada da imagem, em contraponto a um esvaziamento
intelectual, crítico e político.
E é
provável que seja esse ponto o diferencial entre o artista e o homem comum. O primeiro
busca através de sua arte suscitar questões, reflexões, discussões sobre a
realidade do homem no contexto em que se encontra no mundo contemporâneo. Como
afirma Bauman, “a cultura representa as reivindicações do particular contra a
pressão homogeneizante do geral, e ‘envolve um impulso irrevogavelmente crítico
em relação ao status quo e todas as
suas instituições’”. E não é com narrativas fechadas, de cunho moral, ou de
obras panfletárias que se alcança tal aspiração. Mas se trata de utilizar os mesmos
meios e mídias disseminadas nesse novo contexto. A forma está posta pelo nosso
tempo: é a forma do jogo, das interdependências, das interdisciplinaridades,
das intersecções, dos afetos. É um expor-se no nível pessoal, até íntimo, mas
no sentido de se provocar sensações universais, profundas. É pela influência
mútua que as pessoas se modificam, o que também é uma necessidade. A fluidez
permite esse trânsito contínuo, de vai e vem, que sutilmente nos transforma um
pouco a cada dia.
No
jogo de ambiguidades de significações, as possibilidades se multiplicam, e são
determinadas por ambos os jogadores: ator e público. Diversos sentidos se
constroem dinamicamente, a partir das imagens construídas, inclusive pelo
texto. São as narrativas das sensações.
Se no contato
artista/público o verbo é sentir, e este acontece em ambos os sujeitos, abre-se
também uma janela de contaminação entre a intelectualidade e o popular. O
efeito disso é a troca sensorial, em lugar da intelectual, conectando-os
através de identificações que provavelmente surgirão no nível mais humano.
Embora não se possa
delinear claramente o que é a pós-modernidade, visto que ainda se estabelece
num processo de transformação não concluso, é possível identificar
características que a distinguem do período anterior, a modernidade. Aquela
apresenta características como a negação a todas as formas de metanarrativa, as
quais Foucaut e Lyotard chama de totalizantes, e a atenção voltada para grupos
sociais conhecidos como “minorias”. Porém, a pós-modernidade não está imune ao mercado
do consumo que, hoje, atua como o grande poder. Muito pelo contrário, ela
dialoga, interfere e é totalmente influenciada pelas normas que regem essa
estrutura econômica e social da contemporaneidade, como os recursos
tecnológicos, as mídias, a linguagem publicitária, a produção efêmera, a
coisificação da obra de arte e a espetacularização do sujeito.
Se faltam parâmetros
aos próprios artistas, mais ainda faltam àqueles que legitimam a arte, para os
quais muitas vezes vigoram parâmetros ultrapassados, tornando questionável
aquilo que se define como arte. Ou, ainda, se o poder deixou de ser do estado e
agora pertence ao mercado, então os parâmetros passaram a ser muito mais
comerciais. E a arte entra na classificação de produto de consumo. É também
válido um olhar sobre a vulnerabilidade dos produtos culturais à manipulação do
mercado de massa.
Harvey aponta como o
fato mais espantoso sobre o pós-modernismo a sua total aceitação do efêmero, do
fragmentário, do descontínuo e do caótico. Tais características são apontadas
também por Bauman, seja no contexto artístico, seja no contexto cultural como
um todo, englobando não só a produção criativa como tudo o que os homens pensam
e fazem, artefatos, ideias, crenças e valores.
A fluidez se
estabelece como o lugar de criação e atuação, eliminando qualquer tentativa de
fechamento, de determinação da produção artística. Esta, caracteriza-se
essencialmente como um evento, onde o momento presente é a matéria principal,
estabelecendo relações de jogo entre emissores e receptores. Estes últimos
passam a assumir um papel ativo, à medida em que sua participação é exigida
primordialmente na ressignificação das ações apresentadas, muitas vezes
destituídas de narrativas e, consequentemente, de sentidos pré estabelecidos.
Outro aspecto
relevante no contexto da pós-modernidade são as comunidades interpretativas – grupos
caracterizados por terem em comum tipos particulares de conhecimento, num
contexto institucional particular –, uma vez que, por um lado, elas se
apresentam como uma possibilidade para reação às formas centrais de exploração
e repressão capitalista, como aponta Foucaut, contudo, por outro lado, pode
levar a produção cultural a um enredamento limitado a seu lugar específico,
desvirtuando uma das características primordiais da arte, a de questionar e
fazer questionar. Neste sentido, é importante garantir o entrecruzamento dos
discursos produzidos por cada pequeno grupo, gerando um grande campo de
reverberações.
É papel do artista
utilizar-se do Fragmento, Desconstrução, recombinação de elementos,
participação, contra os sistemas fixos de representação. refletindo,
criticando, inconformando-se e propondo embates.
Cabe questionar o
quanto a sociedade de consumo influenciou a cultura no sentido de esvaziá-la de
significado, de utopias, de história e de esperança, criando um estado
permanente de vazio, a ser suprido continuamente, e a cada vez de uma nova
forma, por produtos, alimentando assim a sociedade consumista.
É como se o fim fosse
certo e estivesse próximo. Isso nos conduz a uma supervalorização do momento
presente, de certa forma, negligenciando a história e eliminando qualquer
perspectiva futura. A desesperança, provocada também pela frustração com
tentativas “salvadoras” do passado, parece dar o tom da produção cultural
contemporânea que foca essencialmente no aqui e agora, e na troca que esta
condição possibilita. Se a urgência do mundo pós-moderno nos inflige a
permanecer na superfície das relações, a arte apresenta-se como uma “mídia da
afetação mútua”, enquanto desbravadora do espaço vazio, onde permite o
encontro, o desnude, a travessia, ainda que sem destino certo, e a criação
coletiva de significados, mesmo distintos.
Consumismo
capitalista versus autoridade intelectual sobre o gosto cultural. A produção
cultural, tal qual todas as outras áreas, também é influenciada pelo consumismo
capitalista, seja através da televisão, da moda, das tecnologias, do cinema.
Lançando um olhar
específico sobre o conceito de televisão como “produto do capitalismo avançado
a ser vista no contexto da promoção de uma cultura do consumismo”, apontado por
Harvey, é possível realizar uma abordagem de maneira distinta, sem mitigar a
abrangência desta mídia como disseminadora de conteúdo artístico, informativo,
educativo, nem sempre a serviço do mercado de consumo. Seu conteúdo é, em sua
maioria, direcionado às massas, porém não se restringe a elas, uma vez que
possui uma gama de programações tão vasta quanto os gostos e preferências dos
inúmeros tipos de telespectadores. Atinge desde o mais popular, ao mais
sofisticado.
Lançar um olhar
sobre as potencialidades artísticas da televisão, não só como transmissora de
conteúdo artístico, mas, e principalmente, como uma ferramenta tecnológica, tal
qual a internet e outras mídias, capaz de transformar os processos criativos e
ser transformada por eles também, diante de recursos que vem sendo
desenvolvidos como a tv digital, a interatividade, as multiplataformas,
convergências midiáticas e hibridismos de linguagens, se apresenta em diálogo
coerente com as novas formas do fazer arte. É também delinear esse novo tipo de
criação que se inscreve, ainda que tenuamente, na nossa história contemporânea.
Embora o mercado de
consumo tenha um forte impacto sobre a necessidade do indivíduo de reconstruir identidades de forma contínua, a arte teatral,
aliada às tecnologias do mundo pós-moderno, vem, através da ideia de fluidez,
propor um atravessamento deste indivíduo, colocando-o em situação de ação, num
contexto de crítica e reflexão sobre sua realidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAUMAN, Zygmunt. Vida
líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
FERNANDES, Rafaela. Cena líquida: a arte teatral em
aderência e resistência à contemporaneidade. Em
Tese, v.19, n.1. Belo Horizonte, jan-abr 2013.
HARVEY, David. Condição
pós-moderna. São Paulo, Loyola, 1993.
SANTAELLA,
Lúcia. Cultura e artes do pós-humano: da cultura das mídias à
cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003.
Nenhum comentário:
Postar um comentário