terça-feira, 16 de junho de 2015

11/03/15 - da modernidade à pós

11 de março de 2015
 Da modernidade à pós

Expanações do Prof. Dr. Adriano Cruz sobre o texto de Harvey: Passagem da Modernidade à Pós-modernidade

Características da Pós-modernidade:
  • Fracasso das narrativas que pretendem “dar conta do mundo” (marxismo, iluminismo, etc.).
  • A esperança na economia e no capitalismo decaem.
  • Ampliação do olhar para outros mundos, inclusive dentro da academia. Stuart Hall, Raymond Williams (cultura pop, feminismo, negros, etc.).
  • Lugar e hora do 3º mundo falar.
  • Debate da Pós-Modernidade: décadas de 70 e 80.
  • Da diáspora – Livro de Stuart Hall.
  • Bauman fala de um “entrelugar”.
  • O poder do Estado na URSS.
  • A fragmentação do mundo abre espaço para os confrontos, guerras e insurgências.
  • Espaço urbano caótico.
  • Discurso da descontinuidade (na ciência, na história), regimes de verdade que se alternam.
  • Rejeição ao progresso, uma vez que “ele não deu certo”.
  • Fragmentação e a efemeridade também podem ser características positivas.
  • Múltiplas representações do mundo.
  • Instantaneidade.
  • Possibilidades multimídia.
  • Colapso dos horizontes temporais.


Apontamentos sobre o texto: Poética do pós-modernismo, de Linda Hutcheon
  • Contradição – instala conceitos e os subverte.
  • Fenômeno histórico.
  • Política.
  • Diálogo irônico com o passado.
  • Paródia.
  • Reelaboração crítica do passado.
  • Cultura de massa encarada de forma positiva.


Assistimos ainda trechos do filme Koyaanisqatsi.


Assistimos ao filme 35 and Single:



Indicações:
Filmes: Depois do pornô; Ninfomaníaca; todos Erika Lust.
Livro: A máquina de Narciso.
Espetáculo: A encruzilhada do mundo – Bololô e Atores à Deriva


A seguir, um ensaio que fiz sobre o tema da Pós-Modernidade, e as questões que durante a disciplina vem me provocando, atravessando.


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Identidade e Arte Teatral na Pós-modernidade, Influências da Tecnologia e do Mercado de Consumo

Se é característica intrínseca ao artista transgredir e questionar, faz-se necessária uma visão crítica de mundo, diferenciada, principalmente no contexto pós-moderno, onde faltam-nos referências sólidas. Onde a negação da solidez, nos torna também “objetos” dessa sociedade sem limites, sem escrúpulos, sem calor. As convicções perderam-se no caminho.
Na modernidade líquida, o indivíduo é impelido a construir novas identidades a cada ciclo, de tal forma que essa autorredefinição torna-se uma necessidade, e a estabilidade torna-se uma condição deprimente e em desalinho com o contexto do mundo contemporâneo.
Há, em nosso tempo, uma tendência à autoespetacularização, uma exibição pública de intimidades e pessoalidades “selecionadas” para construir uma identidade ou personagem efêmera, que em um curto intervalo de tempo se transforma completamente, seja pela inquietude inerente ao indivíduo deste tempo, seja pela sua interrelação com o ambiente e os seus pares. O sucesso mede-se de acordo com a quantidade de “likes”, enquanto que menos compartilhamentos significam menos aceitação à faceta exposta, e mais rapidamente a mudança se faz necessária. Dessa forma, os indivíduos vão-se moldando, a cada dia, a cada post, numa reinvenção desesperada da imagem, em contraponto a um esvaziamento intelectual, crítico e político.
E é provável que seja esse ponto o diferencial entre o artista e o homem comum. O primeiro busca através de sua arte suscitar questões, reflexões, discussões sobre a realidade do homem no contexto em que se encontra no mundo contemporâneo. Como afirma Bauman, “a cultura representa as reivindicações do particular contra a pressão homogeneizante do geral, e ‘envolve um impulso irrevogavelmente crítico em relação ao status quo e todas as suas instituições’”. E não é com narrativas fechadas, de cunho moral, ou de obras panfletárias que se alcança tal aspiração. Mas se trata de utilizar os mesmos meios e mídias disseminadas nesse novo contexto. A forma está posta pelo nosso tempo: é a forma do jogo, das interdependências, das interdisciplinaridades, das intersecções, dos afetos. É um expor-se no nível pessoal, até íntimo, mas no sentido de se provocar sensações universais, profundas. É pela influência mútua que as pessoas se modificam, o que também é uma necessidade. A fluidez permite esse trânsito contínuo, de vai e vem, que sutilmente nos transforma um pouco a cada dia.
No jogo de ambiguidades de significações, as possibilidades se multiplicam, e são determinadas por ambos os jogadores: ator e público. Diversos sentidos se constroem dinamicamente, a partir das imagens construídas, inclusive pelo texto. São as narrativas das sensações.
Se no contato artista/público o verbo é sentir, e este acontece em ambos os sujeitos, abre-se também uma janela de contaminação entre a intelectualidade e o popular. O efeito disso é a troca sensorial, em lugar da intelectual, conectando-os através de identificações que provavelmente surgirão no nível mais humano.
Embora não se possa delinear claramente o que é a pós-modernidade, visto que ainda se estabelece num processo de transformação não concluso, é possível identificar características que a distinguem do período anterior, a modernidade. Aquela apresenta características como a negação a todas as formas de metanarrativa, as quais Foucaut e Lyotard chama de totalizantes, e a atenção voltada para grupos sociais conhecidos como “minorias”. Porém, a pós-modernidade não está imune ao mercado do consumo que, hoje, atua como o grande poder. Muito pelo contrário, ela dialoga, interfere e é totalmente influenciada pelas normas que regem essa estrutura econômica e social da contemporaneidade, como os recursos tecnológicos, as mídias, a linguagem publicitária, a produção efêmera, a coisificação da obra de arte e a espetacularização do sujeito.
Se faltam parâmetros aos próprios artistas, mais ainda faltam àqueles que legitimam a arte, para os quais muitas vezes vigoram parâmetros ultrapassados, tornando questionável aquilo que se define como arte. Ou, ainda, se o poder deixou de ser do estado e agora pertence ao mercado, então os parâmetros passaram a ser muito mais comerciais. E a arte entra na classificação de produto de consumo. É também válido um olhar sobre a vulnerabilidade dos produtos culturais à manipulação do mercado de massa.
Harvey aponta como o fato mais espantoso sobre o pós-modernismo a sua total aceitação do efêmero, do fragmentário, do descontínuo e do caótico. Tais características são apontadas também por Bauman, seja no contexto artístico, seja no contexto cultural como um todo, englobando não só a produção criativa como tudo o que os homens pensam e fazem, artefatos, ideias, crenças e valores.
A fluidez se estabelece como o lugar de criação e atuação, eliminando qualquer tentativa de fechamento, de determinação da produção artística. Esta, caracteriza-se essencialmente como um evento, onde o momento presente é a matéria principal, estabelecendo relações de jogo entre emissores e receptores. Estes últimos passam a assumir um papel ativo, à medida em que sua participação é exigida primordialmente na ressignificação das ações apresentadas, muitas vezes destituídas de narrativas e, consequentemente, de sentidos pré estabelecidos.
Outro aspecto relevante no contexto da pós-modernidade são as comunidades interpretativas – grupos caracterizados por terem em comum tipos particulares de conhecimento, num contexto institucional particular –, uma vez que, por um lado, elas se apresentam como uma possibilidade para reação às formas centrais de exploração e repressão capitalista, como aponta Foucaut, contudo, por outro lado, pode levar a produção cultural a um enredamento limitado a seu lugar específico, desvirtuando uma das características primordiais da arte, a de questionar e fazer questionar. Neste sentido, é importante garantir o entrecruzamento dos discursos produzidos por cada pequeno grupo, gerando um grande campo de reverberações.
É papel do artista utilizar-se do Fragmento, Desconstrução, recombinação de elementos, participação, contra os sistemas fixos de representação. refletindo, criticando, inconformando-se e propondo embates.
Cabe questionar o quanto a sociedade de consumo influenciou a cultura no sentido de esvaziá-la de significado, de utopias, de história e de esperança, criando um estado permanente de vazio, a ser suprido continuamente, e a cada vez de uma nova forma, por produtos, alimentando assim a sociedade consumista.
É como se o fim fosse certo e estivesse próximo. Isso nos conduz a uma supervalorização do momento presente, de certa forma, negligenciando a história e eliminando qualquer perspectiva futura. A desesperança, provocada também pela frustração com tentativas “salvadoras” do passado, parece dar o tom da produção cultural contemporânea que foca essencialmente no aqui e agora, e na troca que esta condição possibilita. Se a urgência do mundo pós-moderno nos inflige a permanecer na superfície das relações, a arte apresenta-se como uma “mídia da afetação mútua”, enquanto desbravadora do espaço vazio, onde permite o encontro, o desnude, a travessia, ainda que sem destino certo, e a criação coletiva de significados, mesmo distintos.
Consumismo capitalista versus autoridade intelectual sobre o gosto cultural. A produção cultural, tal qual todas as outras áreas, também é influenciada pelo consumismo capitalista, seja através da televisão, da moda, das tecnologias, do cinema.
Lançando um olhar específico sobre o conceito de televisão como “produto do capitalismo avançado a ser vista no contexto da promoção de uma cultura do consumismo”, apontado por Harvey, é possível realizar uma abordagem de maneira distinta, sem mitigar a abrangência desta mídia como disseminadora de conteúdo artístico, informativo, educativo, nem sempre a serviço do mercado de consumo. Seu conteúdo é, em sua maioria, direcionado às massas, porém não se restringe a elas, uma vez que possui uma gama de programações tão vasta quanto os gostos e preferências dos inúmeros tipos de telespectadores. Atinge desde o mais popular, ao mais sofisticado.
Lançar um olhar sobre as potencialidades artísticas da televisão, não só como transmissora de conteúdo artístico, mas, e principalmente, como uma ferramenta tecnológica, tal qual a internet e outras mídias, capaz de transformar os processos criativos e ser transformada por eles também, diante de recursos que vem sendo desenvolvidos como a tv digital, a interatividade, as multiplataformas, convergências midiáticas e hibridismos de linguagens, se apresenta em diálogo coerente com as novas formas do fazer arte. É também delinear esse novo tipo de criação que se inscreve, ainda que tenuamente, na nossa história contemporânea.
Embora o mercado de consumo tenha um forte impacto sobre a necessidade do indivíduo de reconstruir identidades de forma contínua, a arte teatral, aliada às tecnologias do mundo pós-moderno, vem, através da ideia de fluidez, propor um atravessamento deste indivíduo, colocando-o em situação de ação, num contexto de crítica e reflexão sobre sua realidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
FERNANDES, Rafaela. Cena líquida: a arte teatral em aderência e resistência à contemporaneidadeEm Tese, v.19, n.1. Belo Horizonte, jan-abr 2013.
HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo, Loyola, 1993.

SANTAELLA, Lúcia. Cultura e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003.

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